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Judô

05/08/2016 19h26

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Maria Portela: “Espero premiar toda minha trajetória de luta e determinação”

Atleta relembra o início na modalidade em um projeto social e o período em que trabalhou como babá para seguir no esporte. Com o psicológico reforçado, judoca quer evitar os erros de Londres

“Eu gosto de demonstrar que o impossível é só a maneira como as pessoas encaram as situações”, ensina Maria Portela. Representante do Brasil na categoria -70kg, a judoca sabe bem o significado do que discursa. Desde seu início no esporte, aos oito anos, em um projeto social na periferia de Santa Maria (RS), não foram poucos os desafios para não desistir dos tatames. Hoje, 20 anos após ter vestido um quimono pela primeira vez, ela relembra a árdua trajetória que espera consagrar na próxima quarta-feira (10.08), no Rio de Janeiro.

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Trajetória de dificuldades financeiras: persistência da atleta para seguir treinando. Foto: Márcio Rodrigues/MPIX/CBJ

“Eu tinha perdido meu pai há dois anos e minha mãe não tinha condições de pagar nada para mim e meus três irmãos”, conta a gaúcha de Júlio de Castilhos, que encontrou no esporte uma válvula para um mundo de transformações. A vontade de viver novas experiências a acompanhou desde cedo. Rumo ao seu primeiro campeonato brasileiro, aos 11 anos, Maria Portela estava no aeroporto e viu um “avião bem grandão”. “Minha primeira sensei conta que eu perguntei para onde ele estava indo. Eu não tinha nem noção do que era seleção brasileira. Ela disse que ele devia ir para a Europa, aí eu respondi que um dia eu também iria viajar para a Europa dentro de um daqueles aviões”, recorda-se.

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Maria Portela trabalhou como babá e morou longe da família. Foto: Daniel Zappe/MPIX/CBJ

Ali começava a transparecer toda garra que Maria Portela precisaria demonstrar para atingir seus objetivos. “Eu acho que pequenas coisas durante a minha trajetória foram construindo esse sonho olímpico”, ressalta. O caminho, de fato, não foi dos mais fáceis. Com resultados nos tatames, a atleta foi convidada para se mudar para Santa Catarina, precisando, ainda na adolescência, se ausentar da família. “Acabei tendo que trabalhar como babá para poder treinar porque meu maior sonho era chegar à seleção brasileira”, explica.

Mesmo com a dedicação dividida entre o judô e o serviço, Portela continuou rendendo. Do Sul, mudou-se novamente, desta vez para São Paulo. “Aí dificultou um pouco mais porque tudo era mais caro, mas tive apoio de várias pessoas que me ajudaram. Também comecei a ganhar o Bolsa Atleta nesse período porque tive bons resultados”, narra a judoca.

Atleta da Sogipa e contemplada com a Bolsa Pódio do governo federal, Maria Portela vive hoje uma realidade totalmente distinta da enfrentada no passado. “Hoje eu sou uma atleta de alto rendimento, então não tenho condições de trabalhar, estudar. Às vezes eu mal consigo terminar minha faculdade porque realmente preciso me dedicar 100%. Se não tivesse uma tranquilidade financeira, seria mais difícil”, aponta. “Eu sei o quanto o esporte muda a vida de uma pessoa porque mudou a minha”, ressalta.

Experiências olímpicas

Embalada pelos resultados de 2011, quando viveu o ano mais vitorioso de sua carreira, com 12 medalhas entre 16 competições internacionais, incluindo o bronze nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, Maria Portela chegou a Londres, em 2012, para sua estreia olímpica. Faltava, contudo, preparar o emocional para a competição. “O que mais me prejudicou foi o fator psicológico. Me deu um branco, eu não consegui desenvolver nada. Saí bastante frustrada”, admite. Na ocasião, a brasileira caiu logo na estreia diante da cubana Yuri Alvear e deixou o tatame aos prantos.

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Participação em Londres-2012: derrota precoce e muitas lágrimas. Foto: Getty Images

Quatro anos depois, a preparação diferenciada já dá seus primeiros sinais. “Desde então, comecei um trabalho psicológico e hoje me sinto muito mais tranquila. Não vou dizer que não estou ansiosa, que não tem um friozinho na barriga, mas tenho trabalhado diariamente para me manter calma”, aponta. “Aprendi a me conhecer melhor, me respeitar e evoluir o que eu precisava tecnicamente e taticamente. Hoje tenho uma segurança e uma confiança muito maiores. Tenho a tranquilidade de saber que eu consigo ganhar de qualquer adversária”, acredita, sem, contudo, esperar um caminho tranquilo pela frente.

“As minhas lutas são sempre emocionantes, não tem muita calma não”, brinca. “Luto com adversárias bem mais altas do que eu, então o ritmo tem que ser mais intenso. Tem várias situações de ‘quase’, mas eu me destaco bastante pela vontade de vencer e de ir para cima delas, sem temer o tamanho”, afirma a judoca de 1,58m.

Desta vez, Maria Portela espera ter corrigido os erros do passado e contar com um impulso extra das arquibancadas. “A minha primeira sensei vai estar lá, minha família, todos os meus amigos e as pessoas que me ajudaram. Tenho certeza de que vai ser uma Olimpíada com um sentimento diferente, uma energia sinistra”, prevê. “Espero finalmente alcançar meus objetivos e premiar toda essa minha trajetória de bastante luta, de determinação, e que eu consiga usar toda essa vontade de vencer na hora das minhas lutas”, deseja. A gaúcha estreia no Rio contra Assmaa Niang, do Marrocos, antes de encarar Bernadette Graf, da Áustria.

Ana Cláudia Felizola – brasil2016.gov.br