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Atletismo

15/02/2016 11h35

MOMENTO OLÍMPICO

Derek Redmond: “Decidi que as Olimpíadas não ganhariam de mim”

Britânico que protagonizou histórica cena de lesão e superação nos Jogos de Barcelona-1992 relembra a carreira, a repercussão que ganhou e o sonho frustrado da medalha

Geralmente, é por meio do pódio que um competidor se consagra no esporte ou até vira ídolo internacional. Contudo, dificilmente alguém se lembra, atualmente, de que foi o norte-americano Quincy Watts quem venceu os 400m em Barcelona-1992. Muito menos que Steve Lewis, também dos Estados Unidos, terminou a semifinal em primeiro, com 44s50. A prova ficou eternizada por um atleta que nem se classificou para a decisão, mas levantou os 65 mil espectadores do estádio a seu favor.

Naquele ano, o britânico Derek Redmond queria enterrar os fantasmas de Seul-1988, quando uma lesão no tendão de Aquiles o tirou da disputa faltando 10 minutos para o início da bateria. Barcelona tinha tudo para dar certo. Um ano antes, o atleta integrou o revezamento que levou o ouro no 4 x 400m durante o Mundial, em Tóquio. A preparação física estava no auge. “Eu estava na melhor forma da minha carreira. Era a melhor chance que eu tinha de ganhar uma medalha olímpica, principalmente o ouro”, conta Derek.

Toda expectativa e preparação foram frustradas quando, 250m depois do início da corrida, um tendão da perna direita se rompeu. Em uma lesão completamente diferente da sofrida quatro anos antes, Derek viu morrer novamente o sonho. “Foi muito difícil. A lesão veio na hora errada, no meio de uma corrida. Não foi um bom momento nem fácil lidar com isso”, comenta o britânico, em entrevista ao brasil2016.gov.br.

Derek assim que sofreu a contusão e amparado pelo pai: momento virou referência até para Obama. Fotos: Comitê Olímpico Internacional

Derek, porém, ganharia os holofotes segundos após o incidente. Chorando muito e visivelmente com fortes dores, o atleta levantou do chão e, afastando os médicos e câmeras da organização, foi pulando num pé só na raia olímpica para terminar a corrida. “Uma das coisas que me fizeram continuar foi um pouco de frustração, porque tive muitas lesões antes e não acreditava que isso estava acontecendo de novo”, explica. “Fiquei chateado e frustrado, e decidi que, naquele momento, as Olimpíadas não ganhariam de mim. Eu iria, ao menos, terminar a corrida. Foi isso o que me fez continuar correndo”, justifica.

O público já estava aplaudindo e apoiando o atleta quando um homem invadiu a pista e cedeu o ombro para ajudá-lo a completar o percurso. Era seu pai, Jim. “A primeira coisa que eu disse para ele foi ‘me ajude a voltar para a minha raia’, que era a de número 5, porque eu queria terminar a corrida. A princípio, meu pai queria que eu parasse para que não machucasse ainda mais a perna, mas eu disse ‘não, me coloque de volta na raia 5’. Então, ele disse ‘ok’”, relembra Derek. “Eu sabia que ele estava em Barcelona, nós tínhamos conversado antes, mas fiquei surpreso quando ele entrou na pista”, acrescenta.

O pódio distante

Quase 24 anos depois do ocorrido, Derek é ainda uma referência de espírito esportivo. Em 2012, a atitude do britânico foi eleita como o terceiro melhor momento olímpico da história em votação feita com telespectadores da emissora de TV americana NBC. O próprio presidente Barack Obama citou a perseverança do atleta durante um discurso. A despeito de toda visibilidade, ele garante: trocaria tudo por um pódio olímpico.

“Foi uma grande honra o Barack Obama ter me citado em um discurso. Acho que isso mostra o quanto um momento olímpico pode significar para outras pessoas, mas, se tivesse que escolher, preferia ter a medalha do que o momento”, diz. “Eu sou muito triste por não ter conquistado a minha medalha. Foi a melhor chance que já tive e o problema é que você não pode voltar no tempo. Então sou um pouco triste e frustrado por nunca ter ganhado uma medalha olímpica”, acrescenta.

“Eu entendo que as pessoas vejam um grande momento olímpico no que aconteceu, mas para mim foi algo natural. Eu precisava terminar. Em alguns momentos pode ser difícil para mim ver isso do mesmo ângulo que outras pessoas veem”, avalia. Comentar o assunto também não foi sempre tão simples. “Eu precisei de alguns anos para ser capaz de falar sobre isso sem ficar chateado”, recorda o ex-atleta, que ainda quebrou duas vezes o recorde britânico, foi campeão no revezamento 4 x 400m no Campeonato Europeu e nos Jogos da Commonwealth, ambos em 1986, e medalhista de prata no Mundial de 1987.

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Foto: Divulgação

Palestras motivacionais

Hoje, porém, falar sobre o passado já virou parte da rotina de Derek, que até mesmo dá palestras motivacionais para atletas, clubes e, principalmente, no ramo de negócios. “As pessoas começaram a me contatar e me dizer como eu as inspirava”, explica. “Todos os dias alguém me lembra sobre Barcelona, por meio de mensagens que recebo no Twitter, no Facebook ou por e-mail. Todos os dias alguém vai me lembrar, ou vou ler ou ver algo sobre isso”, relata.

A lesão de 1992 encerrou a carreira olímpica do britânico. Foram necessárias sete cirurgias em dois anos, mas, ainda assim, o atletismo não foi mais possível. “Por três anos tentei voltar, mas eram muitas lesões e cirurgias. Depois de três anos, fui avisado pelos médicos que, se continuasse prejudicando a minha perna, poderia chegar ao ponto de nem conseguir mais andar”, relembra.

Sem querer se afastar dos esportes, ele se destacou em outras modalidades. “Joguei basquete pela Inglaterra e fui para o rúgbi. Sempre amei esportes e sou competitivo”, afirma. Hoje, além das palestras que ministra, o ex-atleta ainda encontra tempo para o motociclismo e o kickboxing. “Sempre fui uma pessoa positiva. Eu sempre acreditei que poderia ganhar medalhas, que coisas boas viriam e tentei não pensar em coisas ruins que poderiam acontecer. Mantive isso fora da minha mente e só lidava com isso quando algo acontecia”, conta.

As dores já não o torturam mais. “Estou ficando mais velho e melhor”, brinca, dizendo que o tendão só seria um incômodo em “sprints” ou corridas de longas distâncias. Calejado com o passado e satisfeito com o presente, Derek espera uma edição de sucesso dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. “Eu espero que seja muito bom, que tenha grandes performances. Vocês têm o clima a seu favor. Não tenho dúvidas de que vocês vão sediar Jogos muito bons. Espero poder ir e assistir”, deseja.

Ana Cláudia Felizola – brasil 2016.gov.br