Atletismo
Coreia do Sul
Esquiadora Jaqueline Mourão inicia na madrugada desta quinta a participação brasileira em PyeongChang
Desbravar terrenos desconhecidos não é uma tarefa fácil, ainda mais quando o ambiente é de alta performance e de competitividade acirrada. Mesmo diante desse cenário, a mineira Jaqueline Mourão nunca se sentiu acuada. Primeira atleta brasileira a participar de uma prova olímpica de mountain bike e a primeira a disputar Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno, Jaqueline está em PyeongChang, na Coreia do Sul, para sua sexta edição olímpica. Antes, foram duas no mountain bike (Atenas 2004 e Pequim 2008) e três no esqui cross-country (Turim 2006, Vancouver 2010, quando também competiu no biatlo, e Sochi 2014).
A largada da sua prova, 10 km estilo livre do esqui cross-country, está marcada para 4h30 da manhã (de Brasília) desta quinta-feira (15.02). No fuso horário da Coreia do Sul, 11 horas à frente, o início será às 15h30. Como em uma prova de ciclismo contrarrelógio, as atletas largam uma de cada vez e o atleta que fizer o percurso em menor tempo vence.
- Jaqueline e Guido: parceria no esporte e na vida. Foto: Abelardo Mendes Jr/rededoesporte.gov.br
A sede da modalidade é o Alpensia Cross-Country Skiing Centre, na Região de Montanha das Olimpíadas. No dia seguinte, o Brasil terá outro representante na modalidade: o paulista Victor Santos faz sua estreia em Jogos Olímpicos às 4h do dia 16 de fevereiro. Ele é o único brasileiro classificado para o esqui cross-country masculino. Sua prova é os 15km estilo livre.
Em sua oitava participação em Jogos Olímpicos de Inverno, o Brasil participa da edição de 2018, em PyeongChang, na Coreia do Sul, em cinco modalidades: bobsled, esqui alpino, esqui cross-country, patinação artística e snowboard. A delegação conta com nove atletas e um reserva - todos integrantes do Programa Bolsa Atleta, do Ministério do Esporte.
- Alpensia Cross-Country Skiing Centre, local da competição. Foto: Abelardo Mendes Jr/rededoesporte.gov.br
» Confira a programação das competições com participação brasileira em PyeongChang 2018
Entrevista
Na sala de entrevistas da Vila Olímpica de PyeongChang, Jaqueline conversou com a rededoesporte.gov.br. Assista ao vídeo da entrevista e leia um resumo logo abaixo.
Quando e como foi o seu início no esporte?
Comecei bem novinha, aos seis anos. Pratiquei ginástica olímpica dos seis aos 12 anos e minha mãe sempre me inscreveu em vários esportes porque ela tinha que trabalhar. Foi ótimo para mim porque pude ter vivência esportiva em várias modalidades, aprender vários movimentos. Aos 15 anos, escolhi o mountain bike.
E no ciclismo de alto rendimento? Quando surgiu a ideia de disputar uma Olimpíada no mountain bike?
A partir do ano 2000 eu decidi ir para uma Olimpíada. Na verdade, meu ranking era bem ruim. Eu não fazia muitas provas internacionais e decidi que queria representar o Brasil. Mas houve um problema. Tive um acidente e precisei colocar nove parafusos na perna. Uma cirurgia um pouco complicada, depois de uma queda numa prova de downhill. Quatro anos mais tarde consegui o sonho de estar em uma Olimpíada, em Atenas (2004), quando me tornei a primeira mulher a representar o mountain bike brasileiro em uma Olimpíada.
- Alpensia Cross-Country Skiing Centre, local da competição. Foto: Abelardo Mendes Jr/rededoesporte.gov.br
Pouco tempo depois, você já estava disputando os Jogos Olímpicos de Inverno Turim 2006. Como ocorreu esta mudança de esporte?
Era o mês de maio de 2005, no Canadá, e aí caiu aquela tempestade de neve. Eu falei comigo mesma: o que estou fazendo aqui? Está tudo branco e tenho que pedalar e não tem como, está tudo fofinho lá fora. E aí o Guido Visser (ex-esquiador olímpico pelo Canadá; treinador e marido de Jaqueline) falou: não tem o que fazer, daqui três dias você volta para a bike. Vamos esquiar, vou te mostrar um outro esporte.
O cross-country esqui era algo muito longe da minha realidade, eu nunca tinha esquiado antes. Eu cresci no Brasil. Resolvi topar porque não tinha outra opção. E simplesmente me apaixonei pelo cross-country, porque é um esporte que tem muito a ver com o que amo, que é o mountain bike, com estar em contato com a natureza, com subir e descer a montanha, com estar no silêncio.
A partir daí me concentrei na minha temporada de mountain bike de 2005, mas comecei a pesquisar se existia uma confederação brasileira de neve, quais eram os critérios para classificar para uma Olimpíada. E o Guido só olhando, só vendo e pensando no que eu estava tramando.
O pensamento era qual?
Pensei comigo mesma: "O motor eu tenho, então vamos tentar, ver o que dá". Acabou a temporada de 2005 e decidi me classificar para os Jogos Olímpicos de Inverno de Turim 2006. Em novembro de 2005 foram as minhas primeiras provas e primeiras experiências no esqui competitivo. Não tinha muito tempo, mas o motor falou mais alto e consegui fazer melhor que outras duas brasileiras que estavam tentando se classificar.
» Veja mais imagens da participação brasileira em PyeongChang no Flickr do Ministério do Esporte (fotos para uso editorial gratuito)
Como foi a sua segunda experiência olímpica?
Foi uma surpresa. Foi algo que nunca esperava. Eu trabalhei tão forte para estar em Atenas e, de repente, dois anos mais tarde, já estava em outra Olimpíada. O Guido me ajudou muito a chegar lá e foi uma ótima experiência. Consegui me tornar a primeira brasileira a participar de uma Olimpíada de Verão e de Inverno e fazer história de novo no nosso país.
Em seguida, voltou a treinar forte para a prova de mountain bike?
Eu foquei na bicicleta de novo. Eu queria muito um bom resultado em Pequim, em 2008. E a gente fez uma ótima preparação, eu estava me sentindo bem. Minha meta era chegar entre as dez melhores. Durante a prova, eu estava no Top 10 e, de repente, uma atleta da Nova Zelândia caiu bem na minha frente. Para não passar por cima dela, desviei e acabei furando o pneu numa pedra. Tive que correr a pé até a área de trocar o pneu. Fui para o último lugar. Depois, consegui ultrapassar várias competidoras e fiquei em 19º lugar. A neo-zelandesa que caiu, levantou na mesma hora e terminou no Top 10.
Foi a minha maior frustração esportiva, mas faz parte. Acho que o mais importante é todo o caminho que a gente percorre. Sou grata ao esporte, por tudo o que vivi e por ter tido a honra de poder representar o meu país e de fazer história.
Você foi porta-bandeira da delegação brasileira em duas oportunidades: Cerimônia de Encerramento em Vancouver 2010 e na Abertura em Sochi 2014. Como foram essas experiências?
Sempre tem aquele sonho de você representar seu país em uma cerimônia olímpica. Quando você é a escolhida e aquele sonho se torna realidade, você olha para trás e vê que tudo valeu a pena.
Em PyeongChang, a cerimônia deu destaque à paz e união, com os atletas das Coreias do Sul e do Norte entrando sob a bandeira da Coreia Unificada. Como foi ver isso lá de dentro do Estádio Olímpico de PyeongChang?
É emocionante ver o que o esporte pode fazer, né? Unir povos, como o coreano, que entrou todo junto. Eu levantei, bati palmas. É bonito isso. Não tem diferença de raça, nem diferença de religião... Tudo ali está unido pelo amor ao esporte. É bom fazer parte desse movimento.
Aqui na Coreia, entrei de mãos dadas com o Victor Santos (atleta do esqui cross-country) e do Michel Macedo (atleta do esqui alpino) na cerimônia. Eu estava representando ali a geração mais velha e mais experiente. Eles são os dois mais novos da delegação brasileira em PyeongChang. Foi uma emoção grande poder introduzir os dois a uma cerimônia em Olimpíada.
» Veja como foi a Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang
Pode nos explicar como é a prova que você disputará em PyeongChang?
A prova que vou correr é a que mais adoro. São os 10 km estilo livre, no esqui cross-country. Nas edições olímpicas, a cada quatro anos muda o estilo. Em Sochi 2014, foi 10 km estilo clássico. Então, a última vez que tive a oportunidade de competir nessa prova foi em Vancouver, 2010. Ou seja, tem oito anos que estou esperando correr essa prova de novo. Quero bater meu resultado de Vancouver e quero dar trabalho para as outras atletas de outros países tradicionais.
Como foram os treinos no Alpensia Cross-Country Skiing Centre?
Foram ótimos. Separamos dias para treinos duros, com exercícios intervalados – e pegamos condições adversas, com muito vento. Em outro dia, o tempo estava melhor e fizemos a parte tática, com ênfase para não perder aceleração nas curvas.
Quem são as favoritas para as medalhas dos 10 km do esqui cross-country na Coreia do Sul?
O país sempre favorito é a Noruega. Para escolher três nomes como favoritas, eu falaria a Marit Bjoergen, da Noruega; a Charlotte Kalla, da Suécia; e a Jessica Diggins, dos Estados Unidos. (Veja a lista oficial das competidoras que iniciarão a prova)
Qual a importância da Bolsa Atleta para os atletas brasileiros que participam dos Jogos de Inverno?
Faço parte do Bolsa Atleta desde 2008, na preparação para Pequim, e é essencial para minha performance. O programa dá a possibilidade para todos os atletas competirem em alto rendimento. Sem o Bolsa Atleta, não tenho como ter a tranquilidade para poder me concentrar nos meus treinamentos. É essencial.
De PyeongChang (Coreia do Sul), Abelardo Mendes Jr - rededoesporte.gov.br