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Jogos Paralímpicos de Inverno
A estreia repleta de ineditismos de Aline Rocha e Cristian Ribera no esqui paralímpico
Todos os caminhos de Aline Rocha nos últimos 18 meses tinham como desfecho idealizado um percurso de três quilômetros na região montanhosa de Alpensia, em PyeongChang. Cada treino, cada tombo, cada experiencia com todos os tipos de neve e vento, cada dúvida sobre sua capacidade técnica, tinham uma razão maior, um foco. A partir das 11h deste domingo na Coreia do Sul (23h do sábado no Brasil), a paranaense de 26 anos verá se tornarem reais todos os ineditismos que a sua saga no esqui cross-country proporcionou. Antes dela, às 10h, Cristian Ribera fará a estreia do Brasil nos Jogos Paralímpicos na prova de 15km.
- Aline e Cristian no último treino de reconhecimento do circuito em PyeongChang. Foto: Marcio Rodrigues/MPIX/CPB
Aline largará ao lado de outras 21 atletas de dez nacionalidades para quatro voltas que oficializarão ela como a primeira mulher brasileira a disputar os Jogos Paralímpicos de Inverno. Os 12km sentada no esqui adaptado vão simbolizar, também, que a paranaense de Pinhão será a primeira atleta nacional com o carimbo dos Jogos Paralímpicos de Verão e de Inverno no currículo, já que esteve na maratona e nos 1.500m na Rio 2016.
"Quero com certeza seguir nesse ciclo de dois em dois anos. Amei a neve, e assim que sair daqui viro o foco para Tóquio. Quero chegar bem lá e, quem sabe, conquistar uma medalha"
Aline Rocha
"É inacreditável tudo isso que tem acontecido. Esse tempo no último ano passou tão rápido e, ao mesmo tempo, tão lento. Enquanto estava no Brasil, fora da neve, a sensação era de algo distante, mas esse último mês de preparação na Itália e aqui voou", disse Aline, instantes após o treino de reconhecimento da pista. "A neve estava um pouco derretida e, como teve a competição do biatlo pela manhã, mexida, espetada. Amanhã a previsão é de mais calor, mas vamos encarar qualquer situação", afirmou a atleta.
Aline sofreu uma lesão cervical após um acidente de trânsito quando era adolescente. Encontrou o esporte como forma de reabilitação. A fisioterapia, aos poucos, tornou-se profissão. Sobre uma cadeira de rodas, tornou-se pentacampeã da São Silvestre. Venceu as maratonas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Passou a receber a Bolsa Pódio, do Ministério do Esporte, por estar entre as 20 melhores do mundo em suas provas.
- Trecho plano do circuito de Alpensia, em PyeongChang: palco da estreia dos brasileiros na Paralimpíada de Inverno. Foto: Gustavo Cunha/rededoesporte.gov.br
"Até adiei a finalização de um curso de educação física. Não estava dando para conciliar. Nessa opção que a gente faz, não dá para ter 50% de dedicação. Tem de ser 100% o tempo todo", comentou. A aventura no inverno, inclusive, surgiu originalmente como forma de motivação a mais para as modalidades de verão. "Na verdade, esse foi um dos argumentos para eu tentar a adaptação. Vi que muitas das minhas adversárias em provas internacionais de verão migravam para os esportes da neve nos Jogos de Inverno e nem por isso deixavam de evoluir. Aí pensei: se elas podem, por que não eu?".
- Aline foi a porta-bandeira da delegação brasileira na Cerimônia de Abertura dos Jogos Paralímpicos. Foto: Daniel Basil/MPIX/CPB
Da pergunta, passou para a ação. Por incentivo de um amigo, Fernando Aranha, que foi um dos pioneiros brasileiros em Jogos Paralímpicos de Inverno, em Sochi (2014), idealizou e consolidou uma parceria entre o Comitê Paralímpico Brasileiro e a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN). Como o biotipo e a preparação física dela eram adequados, já estava na neve pela primeira vez em dezembro de 2016, na Suécia. Em janeiro de 2017, nova experiência na Ucrânia. Mesmo sob 28 graus negativos e uma nevasca, terminou a prova a um minuto do índice paralímpico.
Praticou bastante com o roller esqui (de rodinhas) no Brasil e teve a chance de fazer testes num túnel de neve na Alemanha. No fim do ano, em 2017, conseguiu o índice e a vaga paralímpica na etapa da Copa do Mundo do Canadá. De lá para cá, ainda houve tempo de ganhar rodagem nas etapas da Finlândia e da Alemanha e de fazer um período de adaptação de dez dias na altitude de 1.800m em Livigno, na Itália.
"Quero com certeza seguir nesse ciclo de dois em dois anos. Amei a neve, e assim que sair daqui viro o foco para Tóquio. Quero chegar bem lá e, quem sabe, conquistar uma medalha", afirmou.
Precocidades em série
Se Aline avalia que começou tarde no esporte, Cristian Ribera poderia ser definido como seu alter-ego. O adolescente de 15 anos, nascido em Cerejeiras (RO), tem a atividade física como parceira e dever de ofício desde os quatro anos. Uma doença congênita batizada de artrogripose impõe limitações às articulações de suas extremidades e exige muita fisioterapia. Nos intervalos entre as 21 cirurgias de correção que precisou realizar, a última delas há quatro anos, praticou natação, atletismo, tênis e capoeira.
O esqui cross-country foi apresentado a ele há três anos, a partir de uma parceria da Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) com a Fundação Agitos, braço do Comitê Paralímpico Internacional para difundir e fomentar a prática da modalidade no país. A afinidade foi quase imediata. Em dezembro do ano passado, competiu oficialmente pela primeira vez e, em fevereiro, na etapa da Finlândia da Copa do Mundo, alcançou a melhor pontuação no esqui cross-country já registrada por brasileiros (48,19) e assegurou a vaga. É o atleta mais novo entre os 570 inscritos em PyeongChang.
"Para falar a verdade, eu não esperava que conseguisse tão cedo, tão rápido. Acho que a bagagem esportiva que eu carrego desde sempre me ajuda muito, e todo atleta idealiza estar num evento grandioso e representar o Brasil"
Cristian Ribera, de 15 anos
"Para falar a verdade, eu não esperava e acho que ninguém esperava que eu conseguisse tão cedo, tão rápido. Acho que a bagagem esportiva que carrego desde sempre me ajuda", afirma Cristian. "Todo atleta idealiza estar num evento grandioso e representar o Brasil. Ter essa chance, para mim, é gratificante". Ele tem os melhores resultados exatamente na prova que vai disputar na estreia, de 15km, contra outros 29 atletas.
Para o técnico da dupla, Fernando Orso, os dois chegam na competição com as melhores condições físicas. "O período de aclimatação foi intenso e proveitoso. Logo que chegamos na Coreia, fizemos sessões de treinamento bem produtivas e com condições de neve adversas. Eles estão muito bem preparados, mas só saberemos com certeza se o planejamento vai se concretizar ao fim dessa primeira prova", afirmou o treinador.
Depois da prova de endurance, Aline e Cristian voltam à pista para duas outras provas, uma de média distância (7,5km para Cristian, 5km para Aline) e outra de sprint (1km para os dois).
Tipo a maratona
Numa comparação com o atletismo, a prova longa do esqui cross-country seria equivalente à maratona. É uma prova de endurance. Testa a resistência dos atletas. A modalidade em todas as suas vertentes fez a estreia no programa paralímpico nos Jogos de 1976, em Ornskoldsvik, na Suécia. Noruega, Finlândia e Rússia são os três países com mais conquistas paralímpicas.
Os percursos são desenhados para testar habilidades técnicas e de força dos atletas, com subidas, descidas e trechos planos divididos na mesma proporção. As voltas variam em trajetos de 800m a 5km, a depender da prova.
Os atletas são encaixados em três categorias, de acordo com o tipo de deficiência. Há espaço para competidores com deficiência visual, para os que disputam o esqui sentado e para os que disputam em pé. O sitting é quase um trenó, uma cadeira adaptada com esquis. Os atletas com deficiência visual podem esquiar sozinhos, nos casos em que ainda enxergam vultos, ou com auxílio de um guia. Assim como no atletismo paralímpico, o guia não pode ajudar o atleta. Ele apenas indica os melhores caminhos e as técnicas apropriadas para cada momento. Entre os atletas que disputam as provas de "standing" (em pé) estão pessoas com amputações de braço e de perna e com dificuldade de locomoção.
Coeficiente
Como é difícil, mesmo dentro de tantas categorias, estabelecer uma relação de igualdade, os atletas são subdivididos em classes de acordo com o que a sua capacidade física permite em termos de habilidade, força e resistência. Ao fim da prova de cada um, é aplicado um percentual ao tempo final que balanceia a performance de cada atleta balanceada com suas condições físicas, para tornar a disputa mais justa.
Gustavo Cunha, de PyeongChang, na Coreia do Sul - rededoesporte.gov.br